Quando penso em certas pessoas que já não fazem parte da minha vida, há dentro de mim uma septuagenária alcoviteira das terras altas do interior minhoto que desperta para a vida e deseja, com todas as forças do seu ser, transformar-se numa mosca - ou noutra coisa qualquer que lhe permitisse observar essas criaturas sem ser vista. Obviamente, este não seria um plano perfeito caso a distância a percorrer fosse muito longa. Ou tendo em conta que a velhinha/mosca corria o risco de ficar do tamanho do insecto que outrora fora Gregor Samsa - gigantesco, pesadão. Pormaiores técnicos à parte, ela desperta mais vezes do que aquelas que deveria. Hoje, a pessoa que alberga essa idosa de vestes pretas e feições fustigadas pela dureza da vida no campo, teve um bom-bom. Pôde ver sem ser vista. A televisão é uma coisa maravilhosa e ter ex-namorados que dão entrevistas é a cereja no topo do bolo. Sobretudo quando eles estão praticamente carecas e trocaram as lentes de contacto por uns óculos super nhié. Parece que sempre acabou o curso de advogado. Fico contente por ele. Mas só por que está careca. Obviamente.
No momento em que inicio este segundo parágrafo, já se foi parte da euforia relacionada directa ou indirectamente com a calvície da criatura. Começa agora a instalar-se um ligeiro desconforto. Um desconforto proporcional à tomada de consciência de que os 15 anos não passaram só para ele. Pelo sim, pelo não, hoje não encaro mais o espelho.
Este último parágrafo destina-se, como facilmente se perceberá, a tentar minimizar os danos colaterais do wake up do parágrafo anterior: ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca! Ele está careca!





