Esta parte do post chama-se: Onde está o salto?
A caminho do dentista, partiu-se-me o salto da bota. Não cheguei a malhar no chão mas, quando dei por ela, andava meia dúzia de gente - que eu nunca vi e espero nunca mais ver – a procurar o salto. Era bem melhor ter caído (desde que ninguém visse). O prémio foi para um menino que ficou encantado por ter sido ele a encontrar. Agradeci e segui o meu caminho cambaleando e com a minha vaidade a rastejar atrás de mim.
Eu bem que podia terminar aqui, fazendo uma ode à solidariedade humana e dizendo que, afinal, ainda se encontram pessoas boas neste mundo. Pessoas capazes de perder uns minutos do seu dia para procurar o salto da bota de uma estranha. Se quiserem não leiam o resto.
Esta parte do post chama-se: E preliminares, não há?
Nas escadas do prédio do consultório, tentei colar o salto com super cola 3. Sim, tinha uma bisnaga na mala e não me apetece explicar por quê. Foram três minutos que pareceram três dias, e a coisa nem sequer colou em condições. Já na sala de espera, onde entrei coxeando, fui atacada por um “lulu” que, sem pré-aviso, aviou a minha perna sem dó nem piedade, apesar dos puxões de trela da dona. Logo agora que a minha vaidade começava a recuperar... Apeteceu-me dar-lhe um safanão mas tive medo que o salto se descolasse. Terá sido o cheiro da cola? Malvado canito. Não é que me faça confusão, mas o que estava um canito a fazer na sala de espera de um consultório? Será que a dona tinha uma Birkin Dog Bag?
Esta parte do post chama-se: Aprendeste a tratar entorses na faculdade de medicina dentária ou tás numa de me apalpar a perna?
Sim, o dentista queria ver o meu pé porque eu disse-lhe que o tinha torcido. Tava a ver que o gajo ia descobrir que, além de ter perna curta, a mentira também coxeia.
Esta parte do post chama-se: O que é preciso fazer para um sapateiro vos dar uma borla?
Separada dele por um balcão, observo-o a consertar-me a bota. Está visivelmente irritado com a falta de qualidade do fabricante. “Isto nunca mais lhe vai acontecer menina” (e PUMBA - com toda a força) … “Parece impossível” (e PUMBA outra vez - com mais força). E no meio daquele pumba, pumba, pumba, a cabeça do martelo solta-se do cabo, faz ricochete no balcão e pumba na minha cara. É verdade! O filha da p… do martelo bateu-me mesmo por baixo do olho direito.
Por entre as estrelas e os colibris cantantes, consegui ver a expressão horrorizada do senhor. E, enquanto ele se desfazia em desculpas, eu tive uma reacção que deve ter parecido, já, uma sequela mental da pancada que acabara de sofrer: tive um ataque de riso. E não conseguia parar, apesar da dor lancinante e de parecer que tinha ganho um novo coração, mesmo no sito da pancada. Esta parte talvez ficasse melhor num parágrafo separado, com o título - Afinal, ela ficou com sequelas!
O conserto da bota ficou por conta da casa.
O conserto da bota ficou por conta da casa.
Tenho um olho negro mas, em contrapartida, tenho uma bota com um salto inquebrável. Já está no contentor do lixo, mas o salto é inquebrável.
Moral da história: Vaso ruim não quebra.







